| Breve Historial |
|
|
|
Primitivo Edifício
Revestido e caiado a branco, este edifício, que faz gaveto com a Rua de António Carneiro e com a Rua do Heroísmo, está construído em pedra e cal, com algumas guarnições de cantaria. A sua traça arquitectónica é singela, apresentando extensas varandas corridas de ferro forjado densamente trabalhado. O terceiro andar, no ângulo das duas ruas que este edifício ocupa, foi uma ampliação da construção inicial, que sobressai do resto do seu conjunto ferindo a sua linda perspectiva geral. A outra metade, que viria a ser vendida ao Estado, legou-a o Dr. Ribeiro de Faria ao outro filho, Arnaldo Ribeiro de Faria, que, não tendo descendentes, resolveu testamentá-la em favor de uma tia, irmã de D. Maria Jerónima, mãe do Senhor Conde de Monte Bello. Essa tia, D. Maria das Dores, vendeu-a, passados alguns anos, a um particular que, por sua vez, a vendeu ao Estado na década de 40. Posteriormente, e dado que o Estado dispunha destas instalações como proprietário e inquilino, entendeu-se por bem utilizá-las e, assim, no ano lectivo de 1964/65, este imóvel voltou a ser uma nova secção de um estabelecimento de ensino, mas, agora, do Liceu da Rainha Santa Isabel. Este usufruto e direito de propriedade chegou aos nossos dias com a ocupação, desde 1990, pela Direcção Regional de Educação do Norte, que reuniu grande parte dos serviços do Ministério da Educação disseminados pela cidade do Porto. Nos inícios do século XX, ainda antes da queda da Monarquia em 1910, a actual Rua de António Carneiro era o prolongamento da Rua de Barros Lima, que se estendia da Avenida Fernão de Magalhães até à Rua do Heroísmo. Só por volta dos anos 40, com o surgimento de António Carneiro como figura de destaque da vida portuense, se decidiu dar o nome do distinto pintor a esta parte da rua, que se inicia actualmente na Rua do Bonfim e termina na Rua do Heroísmo. E assim se passou a chamar Rua de António Carneiro, enquanto a parte montante da Rua do Bonfim conserva o nome de Barros Lima. Na zona do actual Liceu Alexandre Herculano, inaugurado em 1932, havia um pequeno bosque com aves, inclusive pavões e outras aves exóticas, que faziam as delícias do lugar, e a área que a circundava era constituída por extensos campos agrários. No que respeita à capela, ela possui motivos ornamentais, com uma fachada em granito. Foi, segundo consta, construída ao tempo da restante casa e merece um estudo mais pormenorizado. Das suas imagens, a que merece uma referência especial é a da padroeira da capela, Nossa Senhora das Dores. Dignos também de realce e a merecer um estudo mais atento, são os compassos religiosos alusivos à via sacra que, sendo invulgares, poderão encerrar valor histórico e artístico. O edifício contíguo, separado por um pátio, era o local onde se situavam as cavalariças, hoje totalmente recuperadas, constituindo uma bela construção. Em tempos, enquanto estabelecimento de ensino, serviu de local a oito salas de aula, repartidas pelos dois pisos.
Ligação à Revolução Liberal Barros Lima, que deu o nome à rua, chamava-se Francisco José de Barros Lima e era bisavô materno do actual Conde de Campo Bello, Senhor D. Henrique. Barros Lima foi um dos heróis do Movimento Vintista que eclodiu em 1820, no Porto, e se traduziu na revolta contra a presença dos interesses britânicos em Portugal e contra consequências nefastas sobre o comércio portuense do Tratado de 1810. que abrira as portas do Brasil à navegação do comércio mundial. Esse movimento pretendia o regresso de D. João VI a Portugal e sonhava ainda trazer de volta o Brasil, em vias de separar-se por completo, da sua antiga condição de colónia e retomar a preponderância comercial portuguesa. Barros Lima distinguiu-se nessa luta e no movimento liberal consequente, de que em 1834 saiu vitorioso, inaugurando a monarquia constitucional e o liberalismo político. Por estes e outros factos, Barros Lima foi elevado à condição de Comendador. Em sua homenagem foi dado o seu nome à rua que vinha em linha recta de Fernão de Magalhães até à então Rua do Repouso, hoje do Heroísmo. Também a Rua do Heroísmo está ligada à revolução liberal. Com efeito, foi nesta zona, em plena Rua dó Prado e seu enfiamento até Campanhã, que se deu a batalha mais feroz e sanguinária entre absolutistas e liberais, ou seja, entre partidários de D. Miguel e partidários de D. Pedro, durante o cerco do Porto, em 1833. Oliveira Martins descreve com alguma minúcia, em "Portugal Contemporâneo", a feroz e sangrenta batalha em que os combatentes, que caíram em grande número, se digladiaram braço a braço, de tal modo que os mortos de ambos os campos atingiram os dois milhares. Daí, em homenagem a esse grupo numeroso de heróicos lutadores caídos em combate fratricida, se decidiu, porventura, passar a chamar, em vez de Rua do Prado, Rua do Heroísmo, nome que conserva até aos nossos dias.
Texto de: João Carlos Lobato Costa |





