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Primitivo Edifício


Este edifício é composto por rés-do-chão e três andares; um anexo contíguo, ligado por um pátio, com dois portões de ferro artístico que dão para a rua e uma capela.

Revestido e caiado a branco, este edifício, que faz gaveto com a Rua de António Carneiro e com a Rua do Heroísmo, está construído em pedra e cal, com algumas guarnições de cantaria. A sua traça arquitectónica é singela, apresentando extensas varandas corridas de ferro forjado densamente trabalhado.

O terceiro andar, no ângulo das duas ruas que este edifício ocupa, foi uma ampliação da construção inicial, que sobressai do resto do seu conjunto ferindo a sua linda perspectiva geral.

A divisão do edifício
A razão por que este edifício está hoje simbolicamente dividido sendo originariamente um só, deve-se ao facto de o seu primitivo proprietário provavelmente ter legado a dois descendentes. Era pertença da família do Comendador Francisco José de Barros Lima, um Vintista da Revolução Liberal que deflagrou no nosso país no século passado. Servindo primitivamente de casa de campo e de habitação, esta construção foi legada, pelo Comendador acima mencionado, a uma filha que. por sua vez, teve dois descendentes - Arnaldo e Henrique Ribeiro de Faria - ficando, cada um deles, com uma parte do imóvel. O Senhor Dr. Henrique Ribeiro de Faria, avô do Senhor Conde de Campo Belo (D. Henrique), legou a sua metade do edifício a sua filha, D. Maria Jerónima Ribeiro de Faria (neta de Barros Lima) que, por sua vez, a transmitiu por herança a seu filho, o actual e legitimo proprietário - Conde D. Henrique de Campo Bello.

A outra metade, que viria a ser vendida ao Estado, legou-a o Dr. Ribeiro de Faria ao outro filho, Arnaldo Ribeiro de Faria, que, não tendo descendentes, resolveu testamentá-la em favor de uma tia, irmã de D. Maria Jerónima, mãe do Senhor Conde de Monte Bello. Essa tia, D. Maria das Dores, vendeu-a, passados alguns anos, a um particular que, por sua vez, a vendeu ao Estado na década de 40.

Secção do Liceu Carolina MichaeIis
No conjunto deste edifício funcionou, desde 1 de Novembro de 1938, uma secção feminina do Liceu Carolina Michaelis. A certidão de escritura de arrendamento ao Estado foi efectuada em 27 de Outubro de 1937, no cartório do Bacharel Francisco Maria de Sousa, sito na Rua das Flores, n.º 107, 1º andar, no Porto. A meia folha de papel selado, que então vigorava, importou em dois escudos e cinquenta centavos e o contrato de arrendamento traduziu-se, para o seu proprietário, Diogo de Campo Bello (pai do  Conde Henrique de Campo Bello), na recepção de uma renda mensal de dois mil e quinhentos escudos, com a particularidade do referido prédio se destinar à instalação e funcionamento de uma Secção do Liceu Carolina Michaelis.

Acrescentamento de um 3º andar
Este contrato de arrendamento faz ainda referência à obrigação (entre outras) do senhorio se comprometer a concluir a construção de um terceiro andar no prédio em questão, o que aconteceu. Na realidade, ainda hoje o podemos observar, se atentarmos bem para o seu topo principal, ou seja, o 3º andar do edifício da Rua António Carneiro, por contraste com a parte existente no prolongamento da geminação com a capela, no seu lado nascente, na rua do Heroísmo.

Liceu da Rainha Santa Isabel
Em 26 de Fevereiro de 1946, pela aplicação do De­creto Lei n.º 35905 de 12 de Outubro de 1946, que extinguiu aquela Secção do Liceu Carolina Michaelis foi criado o Liceu da Rainha Santa Isabel. Estas instalações projectaram, então, o futuro liceu e albergaram-no durante cerca de dezasseis anos, mais concretamente, até à inauguração do novo edifício, que ocorreu no ano lectivo de 1962-63.

Posteriormente, e dado que o Estado dispunha destas instalações como proprietário e inquilino, entendeu-se por bem utilizá-las e, assim, no ano lectivo de 1964/65, este imóvel voltou a ser uma nova secção de um estabelecimento de ensino, mas, agora, do Liceu da Rainha Santa Isabel.

Este usufruto e direito de propriedade chegou aos nossos dias com a ocupação, desde 1990, pela Direcção Regional de Educação do Norte, que reuniu grande parte dos serviços do Ministério da Educação disseminados pela cidade do Porto.  

A importância das duas ruas
É curioso analisarmos brevemente a história das duas ruas que delimitam o edifício que tem sido alvo da nossa atenção. Com efeito este local possuiu uma ligação estreita entre a família do Senhor Conde de Campo Bello, a casa e o Movimento Vintista da Revolução Liberal de oitocentos.

Nos inícios do século XX, ainda antes da queda da Monarquia em 1910, a actual Rua de António Carneiro era o prolongamento da Rua de Barros Lima, que se estendia da Avenida Fernão de Magalhães até à Rua do Heroísmo.

Só por volta dos anos 40, com o surgimento de António Carneiro como figura de destaque da vida portuense, se decidiu dar o nome do distinto pintor a esta parte da rua, que se inicia actualmente na Rua do Bonfim e termina na Rua do Heroísmo. E assim se passou a chamar Rua de António Carneiro, enquanto a parte montante da Rua do Bonfim conserva o nome de Barros Lima.

A casa de Barros Lima
A casa onde funcionou a Secção do Liceu da Rainha Santa Isabel e que pertenceu ao bisavô do Conde de Monte Bello, Comendador José de Barros Lima, não tem, em si, muito valor histórico. Das palavras do Senhor Conde D. Henrique de Campo Bello,, tira-se a conclusão de que a sua construção remonta à segunda metade do século passado. Era uma casa associada ao cultivo dos campos que a circundavam e a toda a actividade agrícola.

Na zona do actual Liceu Alexandre Herculano, inaugurado em 1932, havia um pequeno bosque com aves, inclusive pavões e outras aves exóticas, que faziam as delícias do lugar, e a área que a circundava era constituída por extensos campos agrários.

No que respeita à capela, ela possui motivos ornamentais, com uma fachada em granito. Foi, segundo consta, construída ao tempo da restante casa e merece um estudo mais pormenorizado. Das suas imagens, a que merece uma referência especial é a da padroeira da capela, Nossa Senhora das Dores. Dignos também de realce e a merecer um estudo mais atento, são os compassos religiosos alusivos à via sacra que, sendo invulgares, poderão encerrar valor histórico e artístico.

O edifício contíguo, separado por um pátio, era o local onde se situavam as cavalariças, hoje totalmente recuperadas, constituindo uma bela construção. Em tempos, enquanto estabelecimento de ensino, serviu de local a oito salas de aula, repartidas pelos dois pisos.

 

Ligação à Revolução Liberal
Toda a zona circundante deste edifício, - Liceu da Rainha Santa Isabel, Liceu Alexandre Herculano, Rua de Barros Lima e Rua do Heroísmo - estão intimamente associados e ligados à actual família do Senhor Conde de Campo Bello e às lutas liberais do século XIX.

Barros Lima, que deu o nome à rua, chamava-se Francisco José de Barros Lima e era bisavô materno do actual Conde de Campo Bello, Senhor D. Henrique. Barros Lima foi um dos heróis do Movimento Vintista que eclodiu em 1820, no Porto, e se traduziu na revolta contra a presença dos interesses britânicos em Portugal e contra consequências nefastas sobre o comércio portuense do Tratado de 1810. que abrira as portas do Brasil à navegação do comércio mundial. Esse movimento pretendia o regresso de D. João VI a Portugal e sonhava ainda trazer de volta o Brasil, em vias de separar-se por completo, da sua antiga condição de colónia e retomar a preponderância comercial portuguesa. Barros Lima distinguiu-se nessa luta e no movimento liberal consequente, de que em 1834 saiu vitorioso, inaugurando a monarquia constitucional e o liberalismo político.

Por estes e outros factos, Barros Lima foi elevado à condição de Comendador. Em sua homenagem foi dado o seu nome à rua que vinha em linha recta de Fernão de Magalhães até à então Rua do Repouso, hoje do Heroísmo.

Também a Rua do Heroísmo está ligada à revolução liberal. Com efeito, foi nesta zona, em plena Rua dó Prado e seu enfiamento até Campanhã, que se deu a batalha mais feroz e sanguinária entre absolutistas e liberais, ou seja, entre partidários de D. Miguel e partidários de D. Pedro, durante o cerco do Porto, em 1833.

Oliveira Martins descreve com alguma minúcia, em "Portugal Contemporâneo", a feroz e sangrenta batalha em que os combatentes, que caíram em grande número, se digladiaram braço a braço, de tal modo que os mortos de ambos os campos atingiram os dois milhares.

Daí, em homenagem a esse grupo numeroso de heróicos lutadores caídos em combate fratricida, se decidiu, porventura, passar a chamar, em vez de Rua do Prado, Rua do Heroísmo, nome que conserva até aos nossos dias.

 

Texto de: João Carlos Lobato Costa
Adaptação de: Maria Aurora Pereira